As influências da Fenomenologia e do Existencialismo na Psicologia (resumo)

As influências da Fenomenologia e do Existencialismo na Psicologia – Resumo


Conteúdo:

– A Fenomenologia

  • Edmund Husserl
  • atitude fenomenológica
  • fenômeno
  • O exemplo da árvore
  • a consciência intencional
  • suspensão fenomenológica
  • A intuição na Fenomenologia (intuicionismo)
  • Os mais famosos pensadores da fenomenologia
  • A grande influência da fenomenologia nas ciências humanas
  • A mais direta influência da fenomenologia na psicologia

– O existencialismo

  • Soren Kierkegaard
  • Martin Heidegger
  • Jean-Paul Sartre
  • Existência = ser?
  • Essência x existência: folha de papel x homem
  • a existência precede a essência
  • nomes importantes do existencialismo

– A analítica do Dasein (Heidegger)

  • Dasein (ser-aí)
  • ser-no-mundo
  • a) mundanidade
  • b) o cotidiano impessoal
  • c) Compreensão e disposição
  • d) O ser-para-a-morte e o poder-ser em sentido próprio
  • angústia

– A Daseinanalyse (“Análise Existencial”)

  • a) Binswanger
  • b) Medard Boss

– Outras correntes e influências da psicologia existencial

  • Rollo May
  • Irvin D. Yalom

– Psicologia existencial humanista
– Fenomenologia existencial no Brasil
– Considerações finais

A Fenomenologia

Edmund Husserl foi o fundador da Fenomenologia – importante corrente da filosofia moderna que influenciou de forma decisiva o existencialismo. Juntas, Fenomenologia e Existencialismo formam a base para a psicologia fenomenológico-existencial, importante abordagem surgida no século XX.

O pensamento de Husserl tem como motor a questão essencial sobre a fundamentação segura do conhecimento. Sua proposta para a filosofia é o uso de uma atitude radicalmente crítica, que exige que algo mostre-se evidentemente para que seja admitido. A atitude fenomenológica deve ater-se somente ao que se dá à experiência, assim como se dá, ou seja, o fenômeno (fenômeno em grego significa “o simples aparecer dos entes”).

O exemplo da árvore

Ao analisar o ato de percepção de um objeto como uma árvore, imaginamos que existe uma árvore lá fora (a coisa-em-si) e uma representação de árvore dentro de nós (na consciência do sujeito). Para a Fenomenologia, só se pode dizer da relação entre sujeito e objeto.

Os objetos nunca são objetos-em-si, mas sempre objetos-para-uma-consciência. Por outro lado, a consciência nunca é vazia, mas sempre é consciência-de-um-objeto. Na Fenomenologia, a consciência é sempre intencional (dirigida a algo).

Nesse caso, temos:

  • suspensão fenomenológica: deixamos de lado a árvore em si e a representação de árvore
  • atitude fenomenológica: retornamos para as “coisas mesmas” – a árvore-no-campo-percebida-por-um-sujeito (ou o “fenômeno” árvore)

Não entendeu nada do vídeo? Não se preocupa, no começo é assim mesmo…

A intuição na Fenomenologia (intuicionismo)

A fenomenologia de Husserl prioriza a intuição (que é a via de acesso ao fenômeno) em detrimento do pensamento conceitual. O procedimento intuitivo é o elemento fundamental da atitude filosófica.

O termo intuição aqui não tem nada a ver com misticismo ou com o sobrenatural. Ele refere-se à visão direta e imediata de um ente. É por meio da intuição que se dá a relação entre sujeito e objeto – a questão mais própria ao interesse da fenomenologia.

Podemos considerar a fenomenologia como a descrição das estruturas gerais da consciência. Contudo, para a fenomenologia, a consciência não é considerada como uma interioridade psíquica (como na psicologia da introspecção de Wundt), mas como sempre referente ao mundo, e o sujeito não é empírico, mas transcendental.

A fenomenologia “pura” de Husserl foi o ponto de partida para várias aplicações do método fenomenológico, dirigidas à diversas dimensões da relação sujeito-mundo, como por exemplo:

  • Fenomenologias da percepção, da imaginação, da emoção, e da linguagem
  • Fenomenologias das religiões
  • Fenomenologias das relações interpessoais
  • Fenomenologias dos transtornos psíquicos

Os mais famosos pensadores da fenomenologia:

  • Martin Heidegger
  • Jean-Paul Sartre
  • Maurice Merleau-Ponty
  • Paul Ricoeur

A grande influência da fenomenologia nas ciências humanas foi seu modelo de descrição e compreensão de sentido próprio em relação aos fenômenos do “espírito”. Essa abordagem se opõe ao modelo de “explicação causal” das ciências da natureza.

A influência da fenomenologia na psicologia foi mais direta na abordagem da Gestalt.

Na psiquiatria, influenciou grandes nomes como:

  • Karl Jaspers
  • Eugéne Minkowski
  • Ludwig Binswanger
  • Medard Boss

O existencialismo

O existencialismo foi um movimento filosófico e cultural surgido entre as duas grandes guerras mundiais, no eixo Alemanha-França. Seu grande representante é Jean Paul-Sartre.

O protótipo do pensador existencialista é Soren Kierkegaard, que é o principal e mais direto precursor do existencialismo. Kierkegaard defende que o indivíduo não pode ser explicado por uma essência universal. O ser humano consiste em sua própria existência, sua subjetividade, que é puramente liberdade de escolha.

Martin Heidegger foi aluno de Husserl, e sua obra mais famosa é Ser e tempo (1937). Ele desenvolve a “analítica da existência“, que serve como uma base ontológica, de cunho fenomenológico, para o existencialismo.

Sartre, influenciado por Husserl e Heidegger, elabora uma antropologia e uma ontologia para o existencialismo. Sua obra mais famosa é O ser e o nada (1943).

No existencialismo, o termo existência não é sinônimo de ser. Existir é uma maneira específica de ser relacionada ao homem – ente que não possui sentido a priori.

Essência x existência: folha de papel x homem

Para que tenhamos uma folha de papel, foi preciso que alguém tivesse pensado nela antes. Alguém pensou nela, concebeu seu ser, sua essência, e ela foi produzida. Nesse caso, a essência vem antes da existência.

No caso do homem, há uma inversão: primeiro é preciso ser humano, existir, para depois haver pensamento sobre isso e atribuição de sentido. Desse modo, a existência precede a essência.

Apenas o homem é livre pois seu sentido não está predeterminado. Só o homem existe, a folha de papel apenas é.

Alguns outros nomes importantes do existencialismo:

  • Miguel de Unamuno
  • Karl Jaspers
  • Simone de Beauvoir
  • Albert Camus
  • Gabriel Marcel
  • Martin Buber

A analítica do Dasein (Heidegger)

Martin HeideggerEm Ser e tempo, Heidegger emprega um método denominado de fenomenologia hermenêutica para fazer um questionamento ontológico e abordar a questão do ser. O que é ser?

Dasein (ser-aí)

Dasein (ser-aí ou ser-o-aí) é o modo de ser desse ente que somos. Como o homem não tem essência, seu ser está sempre em jogo no seu existir. O Dasein tem sua unidade estrutural ontológica expressa por meio do termo ser-no-mundo.

a) mundanidade

O Dasein / ser-aí é “mundano”, co-originário ao “mundo”. Mundo é entendido aqui como estrutura de sentido, contexto de significação, linguagem historicamente em movimento.

O ser-no-mundo não está fechado em uma interioridade psíquica, mas sempre em relação.

b) o cotidiano impessoal

O existir se encontra geralmente na “indiferença mediana”, “impessoal”. O Dasein foge de si e esquece do seu “ser próprio”, e a relação com ele acontece como se houvesse uma configuração preestabelecida.

O modo de ser cotidiano do Dasein é “decadente” e “inautêntico”. Ao esquecer sua estrutura básica de interrogar, o Dasein distorce o desvelamento das possibilidades de sentido.

c) Compreensão e disposição

Heidegger chama as dimensões essenciais de abertura de sentido do Dasein de “compreensão” e “disposição”.

Angústia é a “disposição compreensiva” na qual há uma abertura do Dasein para si mesmo e para seu ser-no-mundo. A angústia mostra a pura abertura de significações, retira o ser-aí de sua decadência porque o separa da familiaridade cotidiana.

Os entes não mais aparecem como simplesmente dados – surge o “estranhamento“. Como consequência, surge a responsabilidade de assumir a liberdade de poder ser de distintos modos.

d) O ser-para-a-morte e o poder-ser em sentido próprio

Durante sua existência, o Dasein é ser-para-a-morte. A possibilidade de morrer já está implícita desde que nascemos. A experiência de angústia diante do nada permite ao Dasein escolher a si mesmo e encontrar o que possui de mais singular e próprio afora as estruturas do “mundo impessoal” e “público”.

A Daseinanalyse (“Análise Existencial”)

A Daseinanalyse também é chamada de Análise Existencial. Contudo, devido à abrangência do termo “análise existencial”, os terapeutas preferem utilizar o termo Daseinanalyse para referir-se à abordagem baseada no pensamento de Martin Heidegger.

A “análise do Dasein” refere-se à ontologia das estruturas existenciais que constituem o homem enquanto Dasein (ser-aí). Entretanto, a Daseinanalyse clínica (ou análise existencial clínica) é uma aplicação ôntica da analítica heideggeriana. Não se deve discutir os fenômenos que emergem na terapia a partir de uma estrutura existencial, mas sim pelo contexto em que surgem.

a) Binswanger

Ludwig Binswanger foi um psiquiatra suíço, um dos primeiros a propor (década de 1920) a aplicação da fenomenologia à Psiquiatria. Tornou-se um analista existencial por influência de Heidegger e denominou sua abordagem de Daseinanalyse.

Binswanger se opôs à metodologia que se firmava na psiquiatria, importada das ciências da natureza. A análise existencial se opunha, principalmente, à aplicação do determinismo causal à existência humana e a tendência de inferir elementos psíquicos ocultos sob os modos de ser evidentes.

b) Medard Boss

Medard Boss foi um psicoterapeuta e psiquiatra suíço influenciado por Binswanger. Boss organizou os famosos Seminários de Zollikon – encontros de médicos e psicoterapeutas com Heidegger, que ocorreram de 1959 à 1969.

A Daseinanalyse, enquanto exercício clínico da analítica existencial proposta por Heidegger, propõe somente uma atitude de olhar fenomenológico. Essa atitude permite a aparição das múltiplas possibilidades dos fenômenos chamados normais e patológicos.

A compreensão fenomenológica na clínica não propõe a construção de um sistema conceitual da subjetividade humana e nem a restrição dos fenômenos pela objetivação à seus aspectos orgânicos, psicológicos, sociológicos etc. Ela propõe  a análise do “ser-no-mundo-com-o-outro”, que é a condição que permite todos os modos de comportamento e relacionamento humanos.

Para a Daseinanalyse, todas as doenças (como a neurose, por exemplo) são restrições da disposição de possibilidades de relação do homem. A doença não deve ser vista como uma entidade abstrata isolada; em cada caso é necessário perguntar sobre a situação relacional específica em que alguém se comporta de certo modo.

A psicoterapia existencial possui como objetivo a sustentação da questão sobre o “poder-ser” próprio do Dasein e sobre suas novas possibilidades. A ideia do “ser-com” como um aspecto constitutivo do Dasein desloca a questão da compreensão do outro do campo das teorias, técnicas e metodologias para o campo da existência e da experiência.

Outras correntes e influências da psicologia existencial

O eixo Heidegger-Binswanger-Boss pode ser considerado a principal via que liga a filosofia da existência (ou existencialismo) à psicologia, e é o mais importante centro de irradiação intelectual.

Rollo May

Rollo May foi um psicólogo clínico e um dos maiores nomes da psicologia existencial americana, responsável pela difusão dessa corrente de pensamento nos Estados Unidos. Internado em um sanatório por três anos, aproximou-se do pensamento de Kierkegaard. Mesmo sob a influência do existencialismo da Europa, Rollo May imprimiu algumas características próprias à psicologia existencial, como:

  • uso de conceitos de estágios de desenvolvimento
  • tendência de conciliação com certas noções da psicanálise
  • maior aproximação das ideias humanistas americanas

Irvin D. Yalom

Irwin D. Yalom é um dos mais conhecidos nomes da psicoterapia existencial americana na atualidade. Ele é autor de livros que ultrapassaram os círculos intelectuais restritos, como Quando Nietzsche chorou (1991).

A psicologia existencial americana, de um modo geral, teve uma maior aproximação de uma perspectiva humanista e das teorias do desenvolvimento e da personalidade, difíceis de concicliar com a daseinanalyse de Ludwig Binswanger e Medard Boss.

Alguns outros nomes importantes da psicologia americana, como Carl Rogers, Abraham Maslow e Gordon Allport, não podem ser considerados como teóricos da psicologia existencial, mas também estiveram sob influência de ideias do existencialismo.

Psicologia existencial humanista

É preciso analisar com cautela a associação entre fenomenologia existencial e humanismo, que resulta na psicologia existencial humanista. A associação é compreensível, mas a união dessas duas correntes de pensamentos se deu mais por causa de um opositor em comum do que por uma identificação entre as perspectivas.

A principal raiz do humanismo é a filosofia romântica e valoriza coisas como:

  • contemplação estética
  • intuicionismo afetivo
  • superação da dicotomia sujeito e objeto por fusão empática

A fenomenologia existencial também exalta a intuição e a crítica à separação entre sujeito e objeto, mas não valoriza o afetivo em detrimento do racional, e não abre mão da dimensão crítica e do rigor.

Outra diferença entre psicologia fenomenológica existencial e psicologia humanista é em relação ao conceito de sujeito.

  • O humanismo tem como núcleo a ideia de uma subjetividade interior, individual, autoconsciente e sempre direcionada para a autorrealização.
  • A Daseinanalyse tem como fundamento a rejeição à qualquer forma de objetivação da existência humana como subjetividade fechada, seja como eu, consciência, personalidade, pessoa, psique etc.

Em O existencialismo é um humanismo, Sartre defende que o existencialismo é um humanismo no sentido mais próprio porque  se trata de uma filosofia que leva o homem ao confronto com a liberdade e a responsabilidade, e a uma ética da ação e do engajamento.

Heidegger, em uma carta à Jean Beaufret (1947) entitulada Sobre o humanismo, afirma como incompatíveis a compreensão do ser do homem como existência e pura abertura de sentido, e as ideias do humanismo sobre uma essência positiva do homem, como alma, emoção, personalidade, razão etc.

Outra influência da fenomenologia existencial ocorreu no movimento “antipsiquiatria”, de David Cooper e R.D. Laing. Eles fizeram sua principal articulação com Jean-Paul Sartre.

Fenomenologia existencial no Brasil

1963: Eustáquio Portella Nunes estrega sua tese Fundamentos da psicoterapia, que aborda o pensamentos de Heidegger e o de Binswanger.

1973: Fundação da Associação Brasileira de Daseinanalyse, com contribuição direta de Medard Boss.

A presença da fenomenologia existencial no Brasil se dá de forma mais sistemática a partir da década de 1970.

Considerações finais

As pesquisas e produções em psicologia continuam tendo a fenomenologia (principalmente) e o existencialismo como importantes bases teóricas. Recentemente houve uma retomada das perspectivas fenomenológicas em estudos da cognição.

Esse diálogo com a filosofia pode contribuir para o entendimentos dos próprios fundamentos da psicologia. Fenomenologia e existencialismo forneceram importantes críticas à concepções sobre objetividade-subjetividade e ao pensamento técnico-calculante, limitadores de sentido no mundo moderno.

Apenas a partir de uma investigação crítica sobre os paradigmas e as condições históricas de sua origem é possível a abertura de um pensamento par a novas possibilidades históricas.


Referências

Roberto Novaes de Sá. “As influências da Fenomenologia e do Existencialismo na Psicologia”. In História da Psicologia: rumos e percursos (2010).


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