Terapia Peripatética de Grupo: Considerações

Apresentação

Esse texto tem como base o livro Terapia Peripatética de Grupo: Considerações do Demétrius França. Ele é doutor em psicologia, atua como psicólogo clínico, professor, pesquisador. Livro que apresenta dois desdobramentos interessantes: primeiro porque apresenta uma reflexão sobre desafios e inseguranças que jovens psicólogos e demais profissionais de saúde enfrentam no início de suas vidas profissionais. E segundo porque trata-se do primeiro livro inteiramente dedicado a terapia peripatética de grupo no Brasil.


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Para aqueles que não sabem, a terapia peripatética trata-se de uma clínica ambulante sem setting clínico fixo. Se na terapia clínica convencional temos o psicólogo e seu paciente dentro do consultório ou instituição, locais protegidos e privativos. No acompanhamento terapêutico teremos paciente e terapeuta se deslocando a pé, de carro ou transporte público sem setting clínico fixo, a locais abertos como ruas, praças e shoppings.

A terapia peripatética começou na Reforma Psiquiátrica em atendimento aos pacientes que não se adaptavam à terapia convencional dentro do consultório, ou à internação nos hospitais psiquiátricos. Ao longo dos anos essa prática clínica evoluiu e amadureceu adotando diferentes nomes desde auxiliar psiquiátrico, amigo qualificado e acompanhamento terapêutico, que popularmente é conhecido hoje. E é em resposta à evolução dessa prática terapêutica ambulante que Demétrius propõe a adoção de terapia peripatética. Afinal, se originalmente tratava-se de trabalho de apoio a psiquiatras e psicólogos, hoje temos terapeutas peripatéticos que a exercem de forma autônoma e com possibilidades terapêuticas distintas da psicoterapia convencional devido ao setting clínico ambulante.

Peripatético é uma palavra grega que significa “dado a andar, especialmente enquanto ensina ou discute”. Ela é muito usada ao se falar da escola peripatética de Aristóteles, onde o filósofo ensinava a seus alunos enquanto todos caminhavam. Desse modo, os gregos que veiculavam o ensinamento da filosofia dessa maneira eram denominados filósofos ambulantes ou itinerantes, aqueles que passeiam. Os peripatéticos.

A obra, apresenta um estudo de caso desenvolvido em atividade terapêutica, ou seja, é resultado de uma pesquisa-ação. Como principal fundamento teórico, o autor fala do grupo através da noção de gênese e dinâmica de grupo de Kurt Lewin e para o indivíduo utiliza a psicopatologia fenômeno-estrutural de Eugène Minkowski, psiquiatra e fenomenólogo ainda pouco conhecido no Brasil.

O propósito dos grupos de psicoterapia peripatéticos é garantir a seus usuários o sair de si mesmos através do encontro com o outro e/ou com os lugares que visitam fora das paredes institucionais em que permanecem confinados, para se depararem com um mundo onde podem ser mais.

Introdução

A experiência de Demétrius, que segundo ele transformou sua prática clínica, parte de um hospital-dia, que é um serviço de internação parcial. Na terapia peripatética de grupo, o foco não fica concentrado em apenas um diálogo ou atividade central, mas circula espontaneamente entre os participantes de forma difusa e simultânea. Além disso, ele envolve uma série de questões e contingências que extrapolam o setting das terapias grupais convencionais dentro do consultório e com os participantes em círculo, além de outras características clássicas. As variáveis são descontroladas, os estímulos são inéditos, provocantes e cheios de possibilidades.

A pesquisa também é um exercício da psicopatologia do Minkowski, que desenvolveu uma técnica de diagnóstico e intervenção a partir da comparação de sua própria psique com a de seus usuários. Seu trabalho não exclui a psicopatologia convencional, meramente descritivo, mas critica a função dessa perspectiva para o trabalho terapêutico e propõe a compreensão de seus paciente através de uma prática intuitiva e sensível à constituição dos fenômenos para cada indivíduo.A pesquisa-ação pressupõe a participação (e interferência) do pesquisador com naturalidade, sem perseguir uma almejada “neutralidade”. O método para coletar dados segue o entendimento de Mailhiot (1970), que utiliza a teoria de Kurt Lewin para propor o estudo dos fenômenos de grupo em sua totalidade, tal como são percebidos e vividos subjetivamente pelos pesquisadores e participantes. Mailhiot propõe a pesquisa-ação como técnica que permite recorrer aos sentimentos e às impressões do pesquisador e dos participantes como dados de pesquisa. Ele utiliza o conceito de Lewin de que o campo social é uma Gestalt, ou seja, mesmo que o grupo seja constituído por indivíduos e subgrupos, ele não é redutível, pois a dinâmica da constituição desses grupos e subgrupos são características da situação que os proporcionou. A pesquisa-ação como método foi uma resposta às tentativas de reproduzir os fenômenos sociais dentro de laboratórios, que proporcionam resultados questionáveis porque advinham de situações artificiais e que equivocadamente buscavam resultados concretos e absolutos para assuntos subjetivos.

A primeira publicação sobre terapia peripatética ocorreu em 1985, mas a prática surge no contexto da reforma psiquiátrica nos anos 1969-1970 em resposta às demandas não atendidas pelo modelo manicomial da época, de formato hospitalocêntrico e de longas internações, que, na prática, excluíam as pessoas adoecidas de suas famílias e comunidades permanentemente. Curiosamente, algumas biografias de Freud já utilizavam o termo terapia peripatética para designar sessões acontecidas durante uma caminhada.

Psicopatologia fenômeno-estrutural

A alternativa de Minkowski à psicopatologia convencional é que a adoção de síndrome deixe de ser um agrupamento de sintomas e seja reconhecida como “a expressão de uma profunda e característica modificação de toda a personalidade humana”. Ele apropriou-se dos conceitos de Bergson, considerando que os aspectos mais fundamentais da existência humana não são quantificáveis ou mensuráveis, para desenvolver suas próprias classificações de psicologia e de psicopatologia.

Minkowski mostra-se bastante pragmático em seu trabalho e não propõe uma definição ou Norma para psicoterapia. Afinal o evento terapêutico pode ocorrer a partir do que aparentava ser uma simples conversa e nem sempre temos muita clareza quando esse processo se iniciou ou quando foi concluído. Nessa perspectiva o elemento causador do resultado terapêutico pode ser desconhecido dado a complexidade das relações humanas, ficando necessariamente conectado a explicações associadas ao intuitivo e irracional. Ele não exclui e tampouco minimiza a necessidade da formação profissional pelo contrário porque o trabalho terapêutico e de psicopatologia precisa necessariamente ser construída a partir de uma experiência individual e pessoal.

Terapia peripatética

A vivência do cotidiano, fora da instituição de internamento, pode ser por si só terapêutica para esses usuários. O cotidiano pode oferecer alternativas mais criativas a uma vivência que, outrora, fora castigada pelo isolamento e pela agonia de existir. A cura do sujeito que estivera anteriormente isolado pelo sofrimento psíquico grave deve ocorrer justamente no social, ou seja, fora do âmbito institucional (Coelho, 2008).

Uma das peculiaridades da clínica do AT está na montagem de seu enquadre diferenciado da clínica clássica de consultório. Por ser uma clínica que acontece no cotidiano da cidade, o “consultório” se constitui nos espaços públicos. O AT pode acontecer tanto em casa, quanto em ônibus ou em cinemas. É a particularidade de cada lugar que irá definir as regras da sessão. É dito por essa particularidade do AT que o setting desse trabalho é ambulante. (p. 66, 2007)

Terapia peripatética de grupo

No grupo de passeio, todos devem participar da atividade proposta, que acontece extramuros do hospital. Todos têm liberdade para dar sugestões, opinar na sugestão alheia, votar na sugestão preferida. No passeio um pode tomar sorvete, o outro curtir a exposição, o outro ficar sentado, mas todos devem sair juntos (GIOSO et al., 2005).

A rua como setting terapêutico

Todas as psicoterapias pressupõem um setting terapêutico. Geralmente o consultório é um local privativo e protegido onde os envolvidos podem relaxar e se comunicar sem risco de exposição ou interrupção. Os consultórios dispõem de variações características na disposição dos móveis e na decoração relacionadas com a abordagem do profissional que realiza os atendimentos. Um psicanalista, provavelmente, terá um divã. Os settings de psicoterapia de grupo também têm suas peculiaridades relacionadas com a teoria e, geralmente, teremos a disposição dos participantes em círculo (pelo menos em parte da sessão), para que todos possam ver uns aos outros. Mas e quanto ao setting da prática do acompanhante terapêutico?

A terapia peripatética ocorre “fora”. Externa inclusive à definição de regras, instituição e espaço, podendo ser exercida inclusive dentro de um espaço privado de uma casa ou instituição, mas com uma perspectiva diferente. Sendo oferecida nas ruas, nas praças, museus, etc. A priori, todo lugar e toda hora pode ser o momento para a prática do acompanhante terapêutico.

Os participantes

A equipe é formada por terapeutas, auxiliares de enfermagem e psiquiatras. Dentro do total de 80 usuários, o autor marcou a diversidade de diagnósticos, idade e gênero, o que demonstra um trabalho bastante inclusivo e plural.

Considerações finais

Demétrius apresenta relatos interessantes de suas experiências durante a pesquisa. Por exemplo, com Içá (nome fictício):

“Convidamos a todos para sairmos e fomos nos reunindo do lado de fora da clínica. Enquanto o grupo se formava, Içá aproximou-se de mim e disse que queria um abraço, mas, em seguida, passou a mão em minha bunda. (…) no início do tratamento, ela não falava e limitava-se a emitir sons de animais, como cães e gatos.

“Em uma prática clínica convencional essa invasão do corpo do terapeuta não seria permitida, ou não seria possível de ocorrer. Na perspectiva da terapia peripatética esse evento integra o processo terapêutico tanto no processo de compreensão e diagnóstico do paciente quanto no manejo psicoterapêutico sobre este conteúdo corporal.

Em outra situação muito interessante a mesma Iça alega não ter condições de pagar o ônibus que custava 2 reais apresentando uma nota de 20 reais. Convencida por Demétrius a pagar o ônibus, ela retira 2 reais do troco e oferece para a trocadora pedindo os 20 reais de volta. A situação absurda tornou-se cômica com gargalhadas por parte da trocadora ilustra uma relação bastante específica de Iça com o dinheiro e suas dificuldades não apenas para entender o funcionamento do uso do dinheiro, quanto de abrir mão de seus recursos. A partir desse evento no ônibus que não ocorreria nem em um hospital dia, nem em um consultório convencional, novamente foi possível para o terapeuta incrementar sua compreensão de sua paciente e dialogar sobre este assunto a partir de uma perspectiva psicoterapêutica.

Conforme foi ilustrado nestes dois exemplos de outros presentes no livro Terapia Peripatética de grupo: considerações, o autor apresenta uma perspectiva bem diferente sobre a atuação do psicólogo, que não precisa ficar limitado ao consultório ou às paredes das instituições.

Acredito que muitos colegas e estudantes nem entram em contato com esse tipo de teoria e prática dentro da graduação em psicologia. A obra oferece uma ótima oportunidade pensar “fora da caixa” e conhecer novas formas de psicoterapia.

Muitos de vocês devem imaginar que pode ser difícil trabalhar com grupos. Ainda mais com pessoas com transtornos mentais graves, como a esquizofrenia e transtorno bipolar, em ambientes públicos não controlados, como ruas, parques, cinemas, shoppings. Eu imaginei a mesma coisa.

 Isso torna ainda mais interessante acompanhar os relatos do autor, que, ao contrário de um analista que observa friamente os acontecimentos, revela seu lado humano, suas próprias dificuldades de atuar nesse tipo de prática, e como ele lidou com isso.

O autor explica muito bem a teoria que fundamenta a terapia peripatética de grupo, abordando, entre outros pontos importantes, a psicologia das dinâmicas de grupo e a psicopatologia fenômeno-estrutural do Minkowski. A partir de um olhar fenomenológico e da atuação em uma pesquisa-ação, onde o autor realmente mergulha nas relações com os sujeitos, as experiências são contadas de forma única.

É uma boa oportunidade para pensar a psicologia além dos muros das instituições, extrapolando a formação em uma universidade e a “contenção dos corpos” em hospitais psiquiátricos.

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