Sobre a dinâmica da transferência (Freud, 1912) #Psicanálise | Resumo

Resumo do texto “Sobre a dinâmica da transferência” ou “Dinâmica da transferência

Freud apresenta algumas considerações sobre a transferência, seu desencadeamento durante a psicanálise e como ocorre sua assunção no tratamento.


As condições estipuladas pelo sujeito para o amor, a satisfação das pulsões e suas metas são resultado de predisposições inatas e influências na infância. Surge daí um clichê (ou vários), que é repetido regularmente ao longo da vida e reeditado conforme permitido pelas condições exteriores e pela natureza dos objetos de amor acessíveis. Apenas uma parte dessas moções determinantes da vida amorosa se desenvolveu psiquicamente plenamente, está inclinada à realidade e acessível à consciência. Outra parte dessas moções só teve expansão na fantasia ou manteve-se completamente no inconsciente. Se não há satisfação da necessidade de amor pela realidade, o sujeito terá que se aproximar das novas pessoas próximas com representações de expectativas libidinosas.

Por isso, é normal que uma pessoa insatisfeita parcialmente tenha seu investimento libidinal, carregado de expectativa, direcionado para a figura do psicanalista. Esse investimento será guiado por modelos, dará sequência a um clichê, e o analista será inserido em uma das “sequências psíquicas” formadas até então pelo paciente. A transferência pode ocorrer a partir da imago do pai (expressão de Carl Jung), da imago da mãe ou do irmão.

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Há dois pontos ainda obscuros sobre a dinâmica da transferência:

(1) Por que a transferência é tão mais intensa na análise em casos de pessoas neuróticas?

Todas as vezes em que há impedimento das associações livres do paciente, pode-se resolver o impasse garantindo ao paciente que ele agora está dominado por uma ideia relacionada à pessoa do analista ou a algo ligado a ele. Esse esclarecimento faz o obstáculo desaparecer, ou ocorre a transformação da situação de fracasso em uma situação de ocultação de tais ideias que lhe ocorreram.

Freud esclarece a primeira questão afirmando que a intensidade da transferência deve ser atribuída à neurose, e não à psicanálise. A transferência ocorre com maior intensidade em instituições onde paciente neuróticos não tem tratamento psicanalítico. A segunda questão exige mais atenção e maior aprofundamento.

(2) Por que a transferência, que fora da análise possui efeito de cura e é condição para o tratamento bem sucedido, durante a análise é a mais forte resistência contra o tratamento?

A introversão da libido (outra expressão de Jung) é um pré-requisito de toda psiconeurose. Nesse processo há diminuição da porção da libido que pode chegar à consciência, e há um aumento proporcional da porção da libido inconsciente, separada da realidade, que ainda alimenta as fantasias do sujeito. Houve um movimento (parcial ou total) da libido em direção à regressão, causando reanimação das imagens infantis.

O objetivo do tratamento psicanalítico é resgatar a libido, torná-la acessível à consciência e, finalmente, colocá-la a serviço da realidade. Quando a investigação analítica chega à libido recolhida, ocorre uma luta; as forças que provocaram a regressão da libido tornam-se “resistências”, para que esse novo estado seja conservado. No entanto, há resistências mais fortes. Os complexos inconscientes (ou, mais precisamente: as partes desses complexos que pertencem ao inconsciente) sempre exerceram atração sobre a libido disponível à personalidade, que resvalou para a regressão, por causa da perda de intensidade da atração da realidade. Para libertar essa libido, é necessário superar essa atração do inconsciente, ou seja, é preciso que haja a suspensão do recalque das pulsões inconscientes e de suas produções.

A análise luta contra a resistência, que acompanha o tratamento passo a passo; as ocorrências [Einfall] e atos do analisando prestam contas à resistência e colocam-se como um acordo entre as forças que buscam a cura e aquelas que se opõe.

Se seguirmos um complexo patogênico (evidente como sintoma ou imperceptível) da sua representação no consciente até sua origem no inconsciente, chegaremos a um ponto onde a resistência é evidenciada de forma tão clara, que a próxima ocorrência [Einfall] vai necessariamente aparecer como um acordo entre as suas exigências e às do trabalho psicanalítico. É aqui que entra em cena a transferência. A transferência se dá se houver algo da matéria do complexo (o conteúdo do complexo) que é adequado para ser transferido à pessoa do analista, resultando na ideia seguinte e apresentando-se por meio dos sinais de uma resistência, como uma interrupção, por exemplo. Essa ideia de transferência também satisfaz a resistência, por isso chegou à consciência antes de qualquer outra ocorrência. Sempre que acontecer uma aproximação de um complexo patogênico, a parte do complexo que possui capacidade de transferência é impelida para a consciência e defendida insistentemente.

Na análise, a transferência pode aparecer primeiro somente como a mais poderosa arma da resistência, e intensidade e duração da transferência são efeito e expressão da resistência. A resolução do mecanismo da transferência se dá a partir do seu regresso à disponibilidade da libido, que estava em posse de imagos infantis; o seu papel no tratamento analítico, no entanto, só pode ser esclarecido pela abordagem de seus vínculos com a resistência.

Transferência como resistência

Por que há tão perfeita adequação da transferência como meio de resistência? A confissão da moção de desejo para o objeto de desejo é difícil, e a transferência para o analista poderia aliviar o peso dessa confissão, mas por que ela a dificulta?

Para compreendermos o uso da transferência como meios para a resistência, não podemos pensar apenas em uma “transferência” pura. É necessário separá-la em dois tipos:

(a) transferência positiva: transferência de sentimentos carinhosos e

(b) transferência negativa: transferência de sentimentos hostis.

A transferência positiva ainda se divide entre transferência de sentimentos carinhosos ou simpáticos, que podem chegar à consciência, e na transferência que segue pelo inconsciente.

Esses sentimentos geralmente têm origem erótica. Todas as nossas relações emotivas ao longo da vida, como amizade, confiança e simpatia, têm associação genética com a sexualidade. Seu desenvolvimento se deu a partir de desejos puramente sexuais, mas com a meta enfraquecida, mesmo que eles apareçam como não sensuais e puros à nossa autopercepção consciente. Em nossa origem, tínhamos conhecimento apenas de metas sexuais; de acordo com a Psicanálise, as pessoas que admirados ou de quem gostamos podem ser ainda objetos sexuais no nosso inconsciente.

A resposta à questão sobre a atuação da transferência na resistência é a seguinte:

A transferência ao analista só se mostra favorável à resistência durante o tratamento quando se tratar de transferência negativa ou de transferência positiva de moções eróticas recalcadas. Esses dois componentes do ato emotivo podem ser desprendidos do psicanalista se houver “suspensão” da transferência, tornando-a consciente; o componente não-repulsivo capaz de chegar à consciência continua como elemento de sucesso da análise, assim como em outras formas de tratamento. Nesse sentido, pode-se dizer que há sugestão na base dos resultados da Psicanálise, mas sugestão no sentido apresentado por Ferenczi: “o sugestionamento de uma pessoa por meio dos fenômenos de transferência que nela são possíveis”.

A resistência de transferência só aparece na Psicanálise?

Não. Nas instituições, a irrupção da transferência negativa ocorre com bastante frequência. A transferência erótica se mostra de forma clara como resistência contra a cura, mantendo o paciente ”preso” na instituição.

A marca específica dos neuróticos é um alto grau de ambivalência (transferência negativa e transferência carinhosa direcionadas à mesma pessoa, ao mesmo tempo). Essa ambivalência explica a disposição das pessoas neuróticas utilizarem as transferências em prol da resistência. A possibilidade de cura e influência termina onde a capacidade de transferência se torna essencialmente negativa, como no caso dos paranoides.

Ainda há outro ponto a ser explicado sobre o problema da transferência. Quando entra no domínio de uma farta resistência transferencial, o paciente pode se lançar ao analista, passar a desprezar a regra psicanalítica fundamental de falar tudo que vem à mente sem censuras, se esquecer dos princípios do início do tratamento e ficar indiferente à relações e conclusões lógicas que antes o impressionavam. Esses fatores são resultado de um deslocamento para uma situação analítica provocado pelo tratamento.

O tratamento analítico deseja lembrar as moções inconscientes, mas elas não querem ser lembradas; elas almejam a própria reprodução, conforme à atemporalidade e a capacidade alucinatória do inconsciente. Os resultados do despertar das moções inconscientes são experienciados pelo paciente com atualidade e realidade, como ocorre nos sonhos; a pessoa deseja satisfazer suas paixões, desconsiderando a situação real.

O psicanalista tem como objetivo fazer com que o paciente contextualize essas moções emocionais no tratamento e em sua história de vida, subordine-as à observação racional e reconheça-as em seu valor psíquico. Essa batalha entre psicanalista e analisando, entre intelecto e pulsões, entre o reconhecimento e a vontade de agir, ocorre quase com exclusividade nos fenômenos de transferência. A vitória nesse campo se expressa como cura duradoura da neurose.

É impossível negar as dificuldades que o controle dos fenômenos de transferência pode oferecer ao psicanalista, mas são precisamente elas que realizam o precioso trabalho de promover a manifestação e atualização das moções amorosas esquecidas e ocultas dos pacientes.


Referências:

Freud, S. (2017). Fundamentos da Clínica Psicanalítica.


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1 comentário

  1. denis Responder

    Acho que se trata apenas de um fenômeno importante que deve ser reconhecido e vencido pelo profissional, bem menos do que a cura duradoura da neurose.

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