Sobre psicanálise selvagem (“psicanálise silvestre”) [Freud, 1910] – Resumo

Sobre psicanálise selvagem (1910) ou psicanálise silvestre é um texto de Freud. Ele parte de um caso de interpretação “selvagem” de um sintoma por um médico para esclarecer algumas diretrizes da psicanálise.


O texto faz parte da primeira investida para a institucionalização da psicanálise, e foi publicado no ano de fundação da instituição que seria chamada depois de Associação internacional de Psicanálise (IPA).

Venus Castina, por Val Denham. Via Heathen Harvest

Um caso de psicanálise selvagem

Freud apresenta o relato de um caso de psicanálise selvagem onde uma mulher de mais de 40 anos de idade que trazia a ele queixas de estados de angústia. O problema começou com o divórcio de seu último marido, mas foi agravado desde a consulta com um médico de seu bairro que, segundo ela, disse que a causa de sua angústia seria necessidade sexual. Tal médico apresentou três soluções possíveis: reatar o relacionamento com o marido, ter um amante ou se satisfazer sozinha. A partir disso, ela se convenceu que não havia cura, pois não queria a primeira opção e sua moral e religião impediam as outras possibilidades. Supondo que o médico tenha dito o que a paciente relatou, Freud passa a esclarecer alguns aspectos científicos da psicanálise.

O conceito de sexualidade na Psicanálise: A psicossexualidade

No senso comum, entende-se necessidades sexuais como algo ligado ao coito ou outras atividades que levam ao orgasmo. Porém, o conceito de sexualidade em Psicanálise é mais amplo: a “vida sexual” também inclui todas as ativações de sensações carinhosas que tem sua gênese na fonte das moções sexuais primitivas, mesmo que o objetivo sexual original seja bloqueado ou se há a mudança para um objetivo não sexual. Devido a isso, há a preferência pelo termo psicossexualidade, e a ênfase no fato de que o fator psíquico não deve ser esquecido nem subestimado. A palavra sexualidade é utilizada por Freud no mesmo sentido amplo (no idioma alemão) em que se usa a palavra “amar” [lieben].

A insatisfação psíquica pode persistir mesmo quando há relações sexuais normalmente. Mesmo quando há insatisfação de desejos sexuais, combatidos pelos terapeutas quando se tornam satisfação substituta na forma de sintomas nervosos, muitas vezes, só pode haver descarga de uma parte deles por meio de atos sexuais, como o coito. Enfatizar somente o fator somático da sexualidade simplifica o problema, mas não está de acordo com a teoria psicanalítica. Mas há ainda um segundo mal-entendido nas recomendações do médico que supostamente praticou uma psicanálise “selvagem”.

Sexualidade e neuroses

A psicanálise considera a insatisfação sexual como causa das doenças nervosas, mas não é só. Os sintomas nervosos são resultado de um conflito entre uma libido e uma recusa sexual ou recalque excessivamente rígido. Em muitos casos, essas pessoas não têm capacidade de satisfação, devido à ação de suas resistências internas.

Nos casos de neuroses atuais, como a neurose de angústia pura e a neurastenia típica, há dependência do aspecto somático da vida sexual, e há a necessidade de uma terapia com mudanças na atividade sexual somática. Porém, a presença da angústia não necessariamente quer dizer que há uma neurose de angústia. Freud supõe, que no caso da senhora em questão, havia uma histeria de angústia – estado que tem outra etiologia e demanda outra forma de terapia.

Diante das recomendações do médico à senhora (voltar para o marido, ter um amante ou se satisfazer sozinha), Freud levanta a questão: onde entra a Psicanálise (o principal recurso nos casos de angústia)? A partir disso, começa a discutir os erros técnicos no caso de psicanálise “selvagem”.

Comunicação do conteúdo recalcado e resistências

É uma concepção superada a de que o sofrimento do sujeito seja resultado de desconhecimento, e que a cura virá por meio de sua comunicação (relações entre sua vida e as causas da doença, experiências infantis, etc). O momento patogênico é “a fundamentação do desconhecimento em resistências internas”, que são de onde o desconhecimento surgiu em primeiro lugar, e sua sustentação. O objetivo da terapia psicanalítica é combater essas resistências. A comunicação do conteúdo recalcado é somente uma das preparações para a análise e, via de regra, resulta em intensificação do conflito no sujeito e aumento do sofrimento.

Como a comunicação do inconsciente ao sujeito é imprescindível à Psicanálise, há a prescrição de dois pré-requisitos para que ela seja feita, e seja possível reconhecer e ter domínio sobre as resistências de onde vieram o desconhecimento e o recalque: (1) o próprio doente deve se aproximar do conteúdo recalcado, com adequada preparação e (2) deve ter sido feita a transferência, assim uma nova fuga fica impossibilitada pelos sentimentos em relação ao terapeuta.

É condenável, do ponto de vista técnico, atropelar o paciente logo na primeira sessão com a comunicação de seus segredos. Geralmente, isso resulta em inimizade profunda do paciente em relação ao analista, e corte das possibilidades de futuras influências.

Considerações finais

A Psicanálise, por meio dessas recomendações técnicas, substitui a requisição de um “tato médico” que não pode ser aprendido, considerado um talento especial.

Perante os perigos, para os doentes a para a causa da Psicanálise, causados pelo exercício de uma psicanálise “selvagem”, ocorre a fundação de uma Associação Psicanalítica Internacional, em 1910.


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