3 autoras sobre a questão de gênero e feminismo

 Anne Fausto-Sterling

annefAnne Fausto-Sterling é professora de Estudos de Biologia e Gênero na Brown University, dos Estados Unidos. Participante ativa do campo da sexologia, escreveu também em grande quantidade para o campo da biologia de gênero, identidade sexual, identidade de gênero e papéis de gênero.

A professora é uma das principais especialistas em biologia e desenvolvimento de gênero. Usando uma nova abordagem inovadora para compreender as diferenças de gênero, Dra. Fausto-Sterling muda velhas premissas sobre como os seres humanos desenvolvem traços particulares. E com abordagem e teorias dinâmicos no estudo do desenvolvimento humano, seu trabalho expõe falhas das teorias biológicas , mostrando seu lado social e nutrindo o debate.

Em seu site, Sterling fala do seu trabalho como um contraponto na visão da divisão de papéis entre homens e mulheres, tradicionalmente determinado pela evolução humana. Sua abordagem frequentemente desafia as normas estabelecidas. Ela afirma, por exemplo, que o desenvolvimento sexual humano nem sempre é dicotômico e que as diferenças de gênero fluem é uma sequencia contínua, com elementos adjacentes e não em dois “baldes separados”;há uma continuidade entre masculino e feminino.

Em “The Five Sexes”, publicado em 1993, com um foco particular nas experiências intersexuais, expondo a situação dos intersexuais numa realidade em que têm que se adequar a um sistema binário. A obra trouxe uma tempestade para o debate sobre sexo e gênero.quando a autora sugeriu um sistema de cinco sexos. Posteriormente, porém, realizou edições e afirma: “o sistema de dois sexos incorporado em nossa sociedade não é suficiente para abranger todo o espectro da sexualidade humana. Eu tinha a intenção de ser provocativa, mas, no entanto, fui surpreendida pela magnitude da controvérsia desencadeada. Na época, eu sugeri, em tom de gozação, um sistema de cinco sexos, que mais tarde foi alterado em “The Five Sexes Revisited”. Em vez de identificar um número específico de sexos, no segundo artigo que eu escrevi ‘sexo e gênero são melhores conceituados como pontos em um espaço multidimensional.'”

Uma maneira de entender isso é através dos olhos de seres humanos nascem com características anatômicas de ambos os sexos. Outra é entender como a compreensão científica da biologia do sexo e gênero tem sido moldada pela cultura que o produziu. Em “Sexing the Body”, a professora detalha as duas visões.

Principais obras:

  • Myths of gender: biological theories about women and men (1992).

  • Sexing the Body: Gender Politics and the Constyruction of Sexuality (2000).

  • The five sexes, revisited (2000).

  • Sex/Gender: Biology in a Social World (2012).

 

 


 Judith Butler

BERLIN, GERMANY - SEPTEMBER 15: Judith Butler poses for a photo at the Jewish Museum on September 15, 2012 in Berlin, Germany. Butler is a philosopher and professor awarded the Theodor W. Adorno Award this year. (Photo by Target Presse Agentur Gmbh/Getty Images)

Judith Butler, filósofa estadunidense, traz, de vez, a biologia para o campo do social, motivo pelo qual se tornou um dos principais nomes da atualidade nos estudos de gênero e grande expoente da Teoria Queer. Professora de retórica e literatura comparada na Universidade da Califórnia em Berkeley, transita por diversas áreas (como a psicanálise, as teorias feministas, gays e lésbicas, e o pensamento pós-estruturalista) para problematizar a identidade, revelando-a provisória e em constante reconstrução.

Butler, em sua obra Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2010) publicada originalmente em 1990, partilha de certos referenciais foucaultianos e se pergunta se o sexo teria uma história ou se é uma estrutura dada, isenta de questionamentos em vista de sua indiscutível materialidade. Butler discorda da ideia de que só poderíamos fazer teoria social sobre o gênero, enquanto o sexo pertenceria ao corpo e à natureza. Essa é a premissa que Judith Butler problematiza no livro, primeiro da autora traduzido no Brasil (foi lançado nos Estados Unidos em 1990) e ainda hoje reconhecido como sua obra mais importante. Discutir essa dualidade foi o ponto de partida para que a pensadora questionasse o conceito de mulheres como sujeito do feminismo.

Butler pretende historicizar o corpo e o sexo, dissolvendo a dicotomia sexo x gênero, que fornece às feministas possibilidades limitadas de problematização da “natureza biológica” de homens e de mulheres. Para ela, em nossa sociedade estamos diante de uma “ordem compulsória” que exige a coerência total entre um sexo, um gênero e um desejo/prática que são obrigatoriamente heterossexuais.

Para dar um fim a essa lógica que tende à reprodução, Butler destaca a necessidade de subverter a ordem compulsória, desmontando a obrigatoriedade entre sexo, gênero e desejo. O par sexo/gênero foi um dos pontos de partida da política feminista. O conceito de gênero como culturamente construído, distinto do de sexo, como naturalmente adquirido, formaram o par sobre o qual as teorias feministas inicialmente se basearam para defender perspectivas “desnaturalizadoras” sob as quais se dava, no senso comum, a associação do feminino com fragilidade ou submissão, e que até hoje servem para justificar preconceitos. O desmonte da concepção de gênero seria o desmonte de uma equação na qual o gênero seria concebido como o sentido, a essência, a substância, categorias que só funcionariam dentro de uma metafísica que Butler também questionou.

A filósofa procura combater, em Gender Trouble, a chamada metafísica da substância, isto é, a crença difundida de que o sexo e o corpo são entidades materiais naturais e autoevidentes. Butler argumenta, ao contrário, que o gênero não é natural e que não há uma relação necessária entre o corpo de alguém e seu gênero. Todavia, ela também alerta que, mesmo não sendo natural, o gênero pode se apresentar como se o fosse, nos casos em que se cristaliza.


 Kimberlé Crenshaw

KimberleCrenshawKimberlé Crenshaw é professora de Direito da Universidade da Califórnia e da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e uma importante pesquisadora e ativista norte-americana nas áreas dos direitos civis, da teoria legal afro-americana e do feminismo. É também responsável pelo desenvolvimento teórico do conceito da interseção das desigualdades de raça e de gênero.

Kimberlé deu nome à teroria da interseccionalidade, vertente do feminismo que procura conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe social, raça, orientação sexual, etc (no caso de Crenshaw, o feminismo negro) e estuda como os diferentes tipos de discriminação interagem.

Ela afirma que o conceito de interseccionalidade não é exatamente novo, mas o considera parte essencial de uma história. “Em cada geração, em cada esfera intelectual e até mesmo em cada momento político, existiram mulheres afro-americanas que se articularam a partir da necessidade de pensar e falar sobre raça através de uma lente que observe a questão de gênero, ou pensar e falar sobre feminismo através de uma lente que observe a questão de raça. Portanto, esse conceito é uma continuidade disso”, diz a professora.

Crenshaw fala sobre uma espécie de “amnésia coletiva”, o fato de que as mulheres negras não foram poupadas de linchamentos por elas mesmas, e a maneira como o sexismo racista atinge as mulheres negras envolvidas em casos de violência sexual que nunca são processados judicialmente.

É importante destacar esse esquecimento. Crenshaw recorda o intenso trabalho contra o assédio realizado pelos movimentos de direitos civis e fala de uma “certa falta de historicidade” em algumas das conversas e trabalhos que relacionam o feminismo e a luta antirracista… “Intersecionalidade foi algo que eu escrevi em 1986, 1987 e agora há toda uma geração que chegou nessa conversa depois que o feminismo negro e outras formas de pensamentos intersecionais cultivaram o solo”, diz ela. “E eu acho que, as vezes, é difícil para as pessoas imaginarem como era o mundo quando nenhuma dessas ações tinham sido realizadas. Então, eu acho que é útil fazer genealogias que incluam históricos sociais — para que as pessoas tenham a noção de que a forma como nós discutíamos sobre isso esbarrava nas restrições da época. E, a maneira como falamos sobre isso agora foi construída em cima disso. Há muitas coisas que são esquecidas e muitas outras coisas que são aumentadas”.

Crenshaw apresenta uma estrutura provisória que buscar permitir identificar a discriminação racial e a discriminação de gênero, de modo a compreender melhor como essas discriminações operam juntas, limitando as chances de sucesso das mulheres negras. O segundo objetivo é enfatizar a necessidade de empreender esforços abrangentes para eliminar essas barreiras. A questão é reconhecer que as experiências das mulheres negras não podem ser enquadradas separadamente nas categorias da discriminação racial ou da discriminação de gênero. Ambas as categorias precisam ser ampliadas para que se possa abordar as questões de intersecionalidade que as mulheres negras enfrentam. Um dos seus artigos integra o Dossiê da III Conferencia Mundial contra o Racismo (Durban, 2001), publicado pela Revista Estudos Feministas, nº1, 2002, sob a coordenação de Luiza Bairros, da Universidade Católica de Salvador e nele ela detalha como essa abordagem é feita, sobre o trabalho que realiza há pelo menos vinte anos e sobre a experiência pessoal que a fez iniciar no campo.

Referências:

º “Butler e a desconstrução do gênero”, por Carla Rodrigues em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2005000100012

º “O conceito de gênero por Judith Butler: a questão da performatividade”, por Adriano Senkevics, em https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/05/01/o-conceito-de-genero-por-judith-butler-a-questao-da-performatividade/

º “Um pequeno guia ao pensamento, aos conceitos e à obra de Judith Butler” por Cássio Bruno Araujo Rocha,mestre em História pela UFMG, em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332014000200507

º Tradução de Bia Cardoso do texto “Kimberlé Crenshaw on intersectionality: “I wanted to come up with an everyday metaphor that anyone could use”, de Bim Adewunmi(jornalista freelancer e blogueira. Especializada em cultura pop, feminismo e raça). Publicado por Blogueiras Feministas em http://blogueirasfeministas.com/2014/07/kimberle-crenshaw-sobre-intersecionalidade-eu-queria-criar-uma-metafora-cotidiana-que-qualquer-pessoa-pudesse-usar/

º CRENSHAW, Kimberlé, “A Intersecionalidade na Discriminação de Raça e Gênero” em http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/09/Kimberle-Crenshaw.pdf





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